Como escrever sobre algo que eu não aceito?

Ou: eu não aceito meu diagnóstico

Eu comecei a pesquisar sobre o transtorno de personalidade borderline quanto tinha 15 anos, depois de ter feito um desses testes online que diz que tipo de doença se encaixa na sua personalidade - é algo horrível, sim, mas naquela época esses testes eram bem comuns.

Eu fiquei alarmado quando li sobre os sintomas. Me parecia algo de outro mundo, por mais que eu me identificasse em quase todos o aspectos daquele transtorno. Eu me senti mal, porque eu não queria ser daquele jeito. Mas é só um teste, eu pensei, não é um diagnóstico médico.

E o tempo passou.

Mas eu sempre voltava àquele teste, porque eu queria saber da minha "evolução". Duas das vezes em que eu o fiz outra vez, o borderline foi substituído por esquizóide - foi a época em que minha fobia social estava em seu ápice. Eu me tranquilizei, e parei de pensar que era borderline.

E o tempo passou de novo.

Em 2013, depois de uma tentativa de suicídio, eu recebi os diagnósticos de depressão e ansiedade. Eu sentia que não me encaixava muito bem neles, porque eles não explicavam tudo o que acontecia comigo. Em 2016, eu voltei a pesquisar, e tornei a encarar o nome transtorno de personalidade borderline.

Vencido, eu perguntei à terapeuta: é isso que eu tenho? E ela disse: sim, você é borderline.

Tudo começou a fazer sentido, mas ao mesmo tempo meu chão caiu. Eu não queria ser borderline. Eu não queria ter medo de abandono, eu não queria ser autodestrutivo, eu não queria ter algo cuja marca era ser "insuportável".

Eu queria ser normal.

Algum tempo depois, eu troquei de terapeuta porque mudei de cidade. Ela insistia em me tratar pelo diagnóstico, dizendo, alfinetando que eu era borderline sempre que podia. "Você, como border...". Isso me incomodava. Eu não queria ser resumido à minha doença.

Essa terapeuta percebia que eu não aceitava. Toda vez que eu dizia "mas meus pais não aceitam", ela dizia "você também não". Eu queria contra-argumentar, dizer que sim, eu aceitava. Mas era mentira.

Eu não aceito o meu diagnóstico.

Eu não aceito porque as pessoas dizem que eu sou abusivo simplesmente porque eu tenho essas características; eu não aceito porque eu não quero ser tachado de dramático por causa dos meus problemas; eu não aceito porque todo mundo acha que meus problemas são menores do que são de verdade porque eu tenho esse diagnóstico; eu não aceito porque eu não quero ser dependente dos outros e ter medo de ser abandonado; eu não aceito porque eu nego todas as características do transtorno, porque eu quero ser alguém normal.

Eu não aceito porque isso é para a vida. Não existe remissão.

Faz dez anos que eu conheço este transtorno. E até hoje eu não consigo aceitar que eu o tenho.

Como eu posso escrever sobre isso? Como eu posso informar as pessoas sobre algo que eu tento suprimir a todo custo?