Sobre dissociação e multiplicidade

uma saída de armário

A dissociação é tida como uma espécie de linha contínua. Ela é uma maneira que a consciência tem para controlar ou fugir de situações estressantes ou conflitos. De um lado, está o “sonhar acordado”, a maneira saudável de dissociar: você não presta atenção no que está ao redor e fica em um lugar imaginário na sua cabeça, mas é capaz de voltar para si mesmo por vontade própria. Do outro lado, está a dissociação patológica: a alteração no estado de consciência, que pode acontecer das seguintes formas: amnésia, desrealização, despersonalização e adoção de uma nova personalidade.

Para explicar melhor, a dissociação patológica é tida como incapacidade de se lembrar de algum acontecimento (amnésia), sentimento de que o mundo não é real (desrealização), sentimento de que a própria pessoa não é real (despersonalização) e quando existe a presença de mais de uma personalidade distinta no mesmo organismo, seja temporariamente (estado de fuga; amnésia dissociativa), seja um conglomerado de personalidades que se formaram de alguma maneira (“múltiplas personalidades”).

Eu tenho um transtorno mental dissociativo; ele é chamado desrealização e é comumente diagnosticado junto de outro transtorno dissociativo, a despersonalização. Eu pessoalmente sofro mais de desrealização do que de despersonalização, mas os sintomas às vezes são difíceis de serem separados. Eu também tenho outros tipos de dissociação: a amnésia, que é parcialmente um efeito colateral do ansiolítico que eu tomo e parcialmente por conta da amnésia dissociativa que eu desenvolvi depois que acordei do coma em que estive em 2015 (não recuperei a memória e não quero recuperar, obrigado); além disso, eu também tenho um terceiro tipo de dissociação, que é mais “assustador” para a maioria das pessoas, e é aqui que vem minha saída de armário: “múltiplas personalidades”.

Utilizo aspas porque “múltiplas personalidades” é um termo defasado para o que é hoje chamado apenas de “multiplicidade”: ter mais de uma consciência dentro do mesmo corpo. Existem várias maneiras de ser “múltiplo”, assim como existem várias maneiras de se dissociar: jeitos saudáveis e jeitos patológicos. Eu, coincidentemente, faço - ou melhor, já fiz - os dois.

O conhecimento geral de multiplicidade é tida como um transtorno mental. Tanto, que muitas pessoas dizem que é impossível ser múltiplo sem ter transtorno de personalidade dissociativo. Isso é um equívoco. Existem maneiras saudáveis de ser múltiplo, e uma delas é chamada de tulpa.

A palavra “tulpa” foi adaptada por teosofistas tibetanos da palavra “sprul-pa”, que é a forma substantiva de “emanar” ou “manifestar-se”. Tulpa se refere a uma consciência secundária dentro de um corpo, que foi criada pela consciência primária por meio de meditação e alimentação dessa consciência secundária, seja isso voluntário ou não - mas na maior parte das vezes é voluntário. Este conceito, aqui secularizado, é relativamente novo no Ocidente, tendo se popularizado pela ficção na década de 1990. Atualmente, tulpas são frequentemente tidos como “amigos imaginários”.

Muitas pessas têm tulpas, sabendo disso ou não. Se você já teve um amigo imaginário, você já teve um tulpa. Eu tenho vários tulpas, sendo a maioria deles personagens de ficção que eu inventei - o bom e velho “meus personagens me dizem o que escrever”. Estou simplificando a ideia, mas a verdade é que é isso mesmo: tulpa é alguém que você inventa na sua cabeça e que toma vida dentro dela.

Eu também já tive multiplicidade patológica: após ter acordado do coma em 2015, eu entrei em estado de fuga e me tornei alguém que era bem distinto de mim: um artista plástico, que tinha personalidade própria, lembranças próprias e uma aparência própria. Vou tratá-lo por “F.”, que é sua inicial.

F. se manifestou em mim durante quase um ano, e eu não me lembro de muitos dos momentos em que ele tomou controle do meu corpo. Em 2016, eu, de maneira involuntária, dei espaço a outras personalidades: A., um menino adolescente que era incapaz de falar outro idioma que não inglês; H., uma mulher jovem adulta que gostava de maquiagens; e C., uma figura que era minha “inimiga imaginária” na infância. Foi uma época de sofrimento para mim, porque eu não queria que isso acontecesse comigo. Na época eu tinha a ideia de que ter perdido a memória era algo ruim, e não uma benção, porque eu sempre fui muito apegado ao meu passado. Eu queria me lembrar de tudo o que aconteceu comigo antes do coma e durante o episódio psicótico que eu tive depois de acordar. Os fragmentos, por mais ruins que fossem, não me traziam satisfação.

Eventualmente, depois de eu muito ter chorado, F. e H. se foram de dentro de mim. A. permaneceu, de maneira mais “gentil”, sempre falando comigo e se recusando a tomar controle do corpo (mais porque é medroso do que qualquer outra razão). Eu tentei apagar A. também, mas ainda escuto a voz dele no fundo de minha cabeça, sempre me perguntando se estou bem. Apesar da boa intenção, ele é uma das personalidades mais prejudiciais do grupo, já que é autodestrutivo. Geralmente evito de pensar nele, como evito de pensar nessa época em geral.

Eu descobri o conceito de tulpa no ano passado. Li bastante a respeito, e cheguei à conclusão de que, além dessa fase patológica de multiplicidade, eu também tenho uma saudável: meus personagens, meu dæmon e os Chimpunks (uma grafia errada da palavra “chipmunks”), um grupo musical imaginário que eu tenho. Eu alimento meus personagens dentro de mim faz muito, muito tempo. Dimitri e Kirill existem faz onze anos e eles se tornaram entidades responsáveis por si mesmos faz tantos anos que eu nem sei dizer quando. Heitor, meu dæmon, surgiu quando eu adotei “lobisomem” como meu pseudônimo. Eu não tenho certeza desde quando os Chimpunks existem por conta da amnésia, mas sei que surgiram antes do coma. Eles são meu refúgio para quando eu me sinto só, e sou muito grato por tê-los junto de mim.

Existe um jargão específico para múltiplos: nós geralmente nos chamamos de “sistema”. Um sistema pode ser endogênico, isto é, ter sido criado de maneira saudável e natural, ou traumagênico, que seria um sistema patológico (por exmeplo, os sistemas de transtornos dissociativos); existem também os sistemas “quoigênicos”, que não sabem como se tornaram um sistema. Meu sistema envolvendo meus amigos se chama “Chimpunks” por conta da banda que temos, enquanto o que envolve meu dæmon é um sistema separado que tem apenas eu e ele. Eu tenho o que chamamos de “mundo interno”, um lugar construído dentro da minha cabeça para que é um refúgio para o sistema; meu mundo interno se parece muito com o norte do País de Gales.

Existem dois tipos de multiplicidades: a plural e a median. A plural é quando se tem personalidades bem distintas que tomam controle do corpo, causando amnésia ou não. A median se refere a entidades que têm consciências separadas, mas não tomam o controle do corpo por quaisquer razões e, portanto, têm um “centro único”. Eu já fui plural - na época de F., H. e A. - e hoje sou median.